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Entrevista: Laryssa Mira, Stéphanie Meireles e Isis Vieira


Entrevista deste mês é para prestigiar quem ainda se encontra na Faculdade. A nossa conversa foi com grupo de alunas da Universidade Federal Fluminense (UFF): Laryssa Mira (20 anos), Stéphanie Meireles (22 anos), Isis Vieira (22 anos). Juntas elas desenvolveram um produto com foco em Tecnologia Assistiva, no caso para o tratamento de Fisioterapia.

AD - Vocês tinham alguma ideia da aula de Projeto? O que esperavam?

Laryssa  - Antes de entrar na faculdade pensava mesmo que teríamos que desenvolver produtos, mas não sabia que ele seria levado tão adiante. Com protótipos finais bem desenvolvidos e nem que seria tão necessário os testes com o usuário do jeito que fizemos.

AD - Com relação ao Tecnologia Assistiva, era uma tema que chamou a atenção de vocês?

Stéphanie - Já tínhamos uma ideia do que tratava-se,  pois até o momento já é definido - os projetos se repetem um pouco ao longo dos períodos, raramente mudam. Por exemplo, em Projeto 2 é luminárias, foi igual para nós e para o pessoal do período anterior. O que muda mesmo é que quanto mais você "avança" pelos períodos tem um conhecimento maior do que aplicar, no primeiro período por exemplo era só pelo Design, agora já aplicamos conceitos ergonômicos. Para o Projeto 4 costuma ser Projeto de Tecnologia Assistida*. O professor tem contato com duas instituições até (o que facilita para alguns alunos), mas isso não impede que procure outras instituições, ou algum conhecido.

*"Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social" (Comitê de Ajudas Técnicas - CAT)

AD - Então era fácil de organizar?

Isis - Sim, porque era algo diferente de tudo o que já tínhamos feito na Faculdade. Foi a primeira vez que projetamos algo realmente para outra pessoa, pois até então não tínhamos conhecido alguém que fosse ser um usuário para o projeto. Os professores orientavam e nós fazíamos pesquisa do mercado em geral.

AD - E como escolheram? Já tinha interesse em criança?

Stéphanie  - Inicialmente, fizemos pesquisas. A única definição que tínhamos é que seria criança, pois pensamos em trabalhar com Autismo ou com algum portador de síndrome de Williams. Mas a ideia mudou quando fomos visitar a Instituição e observamos de perto as crianças.

AD - E como conheceram o usuário final?

Laryssa  - Acho que já tínhamos pretensão de fazer com uma criança né? Mas queríamos uma criança com idade que pudesse conversar com a gente e dar o Feedback do projeto da visão dela. E o paciente que escolhemos simpatizamos logo de cara com ele! E a mãe foi super simpática e autorizou que a gente realizasse o projeto com ele, então foi bem tranquilo fazer com ele!

AD - Ele tinha o quê?

Isis - No começo nós fazíamos visitas na Instituição que o nosso usuário faz tratamento. As terapeutas sempre foram muito atenciosas e nos davam dicas de quais crianças poderiam interagir mais e até mesmo devido aos tipos de patologias quais teriam maior possibilidade de se trabalhar. Nós nos interessamos pela história do nosso paciente e a terapeuta nos ajudou a falar com ele e a mãe dele quanto as nossas intenções no projetos e os dois se mostraram muito interessados em colaborar.

O nome dele é G. e tem seis anos. Os médicos não possuem um diagnóstico da patologia dele, mas o quadro que ele apresenta é o de Tetraplegia Flácida que causa perda de força muscular.

Imagem mostra a Fisioterapeuta e o paciente em exercício com os braços.
Paciente em trabalho com a Fisioterapeuta

AD -  Então o foco era fortalecer a musculatura?

Laryssa - Exatamente. E na área de Terapia Ocupacional ele estava realizando exercícios para os membros superiores, então foi o foco do nosso projeto

Isis - Ele usa cadeira de rodas e precisa desenvolver força nos membros superiores pra ter autonomia em suas atividades diárias. E é essa questão que eles trabalham na Terapia Ocupacional, setor onde escolhemos fazer o projeto.

Stéphanie - Mas no nosso projeto resolvemos trabalhar com mais elementos, porque é algo que pode ser usado a outros pacientes futuramente. Então trabalhamos a força muscular, a extensão dos membros, a interação (seja com outro paciente ou com a terapeuta) e o Percepto-Cognitivo.

AD - Vocês definiram tudo isso sozinhas ou alguém ajudou?

Isis - A terapeuta nos ajudou muito dando dicas dos aspectos que ele mais precisava trabalhar. Contudo algumas coisas como, a questão do Percepto-Cognitivo, nós decidimos introduzir por nossas observações dos objetos e brinquedos que já eram usados na terapia não eram muito estimulantes para o paciente. Ele logo perdia o interesse ou a atenção nos exercícios e isso fazia com que o exercício não fosse o máximo produtivo como deveria. Também levamos em consideração as opiniões do paciente e da sua mãe quanto as preferencias dos requisitos que o produto deveria ter.

Stéphanie - Eu pedi uma ajuda a meu tio que é neurologista sobre o que pesquisar e também o que ele achava de algumas ideias que a gente tinha, pois ele tinha uma melhor ideia do que se trata.

AD - Quando já tinham todas as informações necessárias. Como chegaram na ideia do Pac-Man?

Isis - Nós fomos gerando diversas alternativas de produtos e dentre eles tiveram duas ideias de trabalhar o raciocínio através de um jogo de labirinto. A alternativa escolhida foi a da Laryssa, que era inspirada no Pac-Man e nós levamos em consideração que o nosso paciente é um fã do Homem-Aranha. E a partir disso tivemos a ideia de inserir outros personagens.

Laryssa - Pensamos em algum objeto que interagisse com o ele e que desperta-se o interesse em usar. Pensamos em algo que pudesse ser um brinquedo e juntando essa ideia com a extensão dos braços, chegamos a pensar em um tabuleiro "vertical". Pensamos também no uso de labirinto, para que ele pudesse fazer movimentos já predispostos. E em cima disso a ideia foi sendo desenvolvida.

Imagem do produto criado pela equipe de alunas da UFF.


AD - E o que foi mais difícil: chegar numa solução para o paciente OU fazer o produto?

Laryssa - Acho que fazer o produto, foi difícil definir os materiais adequados

AD - Por que fazer o produto?

Isis - Os materiais que escolhemos trabalhar foram MDF e EVA que são um pouco difíceis de manusear. Principalmente o EVA que precisamos usar uma máquina do laboratório da faculdade para que quando cortássemos ele ficasse com o acabamento bom. Ele também é difícil de colorir através da aplicação de tinta e para que as bordas ficassem como queríamos foi preciso a solução de desenhar no papel o que queríamos,cortar e colar sobre o EVA.

Stéphanie - Porque apesar de termos estudado os materiais, quando posto em prática foi diferente e na hora não deu muito certo. Por exemplo, antes de pintar a madeira que seria a placa do labirinto usamos Contact, só que não foi uma boa ideia porque os labirintos, que são de tapete de eva, não colavam nem com cola.

AD - Tiveram quanto tempo pra desenvolver?

Isis - Foi mais ou menos 3 meses no total

AD - Qual foi o melhor momento do projeto?

Isis - Bom, para mim acho que foi no dia em que fomos fazer a validação com o usuário para ver se estava tudo funcionando como deveria e pudemos ver o quanto ele ficou satisfeito com o resultado. Mesmo após terminar o horário de terapia dele ele queria continuar brincando

Stéphanie - Para mim foi os momentos de interação com o usuário. Além de presenciar de perto e entender melhor as dificuldades que indivíduos portadores de deficiência possuem (pois uma coisa é ter uma ideia, outra é você ver. E na sala era atendido outros pacientes, que observamos enquanto estávamos a procura de nosso usuário), outra coisa boa foi que possibilitou conhecer ele, a terapeutas, e muitas pessoas muito boas.

Foto mostrando o paciente testando o brinquedo criado pela equipe. O produto é uma tabuleiro vertical com o fundo azul e com detalhes em vermelho.
Foto do teste final com usuário. 

AD - Pode se dizer que este último trabalho, mudou a ideia de vocês de alguma maneira?

Stéphanie - Eu me foquei a pesquisar mais o lado ergonômico, pois qualquer coisa podia afetar a Terapia. Eu descobri que gosto de ergonomia, estou até olhando algumas coisas nessas "férias" de agora, por vontade própria. Mas o que mudou mesmo é que o disse antes: você entende melhor as pessoas se presencia de perto, compreende as suas dificuldades, os seus sentimentos, algo que é totalmente diferente do que se imagina (quer dizer, é sempre algo mais). Eu sabia como é importante e respeitava os terapeutas que se dedicam aos outros, mas agora a visão é outra, não é só respeito, é admiração.

Laryssa - O que mudou pra mim foi que pude perceber a maior importância dos testes tanto com o usuário, quanto com os materiais.

Isis - Eu adquiri uma consciência maior do quanto é importante fazer o Design além da estética ou de fazer algo apenas para agradar ao público que você está trabalhando. A importância de projetar uma coisa que de certa forma vai ajudar uma pessoa a trabalhar as suas dificuldades é algo sem comparação. Além disso, foi a primeira vez que tivemos que pesquisar e correr atrás de informações sobre o quadro do usuário. Nós tivemos que ler inúmeros artigos, sites para poder entender do que se tratava a tetraplegia, buscar informações com o tio da Stéphanie que é médico. Com certeza nós saímos da área de conforto com que estávamos acostumadas a trabalhar.

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