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Entrevista - Hellem Pedroso (parte 1)

Capa - Entrevista Hellem Pedroso


Nossa entrevistada é a Hellem Pedroso. Ela é formada pela FAE em Design e pela Parsons em Business Administration (BBA). Hoje ela trabalha gerente de projetos na International connector e fundadora da criar.se. Ou seja, além de ela compreender sobre a área de criação, ela também entende de planejamento e negócios, tanto que planejamento e Design Thinking são alguns de seus assuntos de interesse. E é justamente sobre Design Thinking  que conversamos com ela.

AD - Desde 2008, você estuda o Design Thinking. Porque o interesse no assunto?

Foi em 2008, participando de Semanas Acadêmicas que eu conheci por meio de amigos algumas áreas do Design - Design Sustentável, Ecodesign, Design Social e tinha o Design Thinking. O Design Thinking era o que para mim fazia mais sentido, porque era pensar numa linha de raciocínio que leva a uma conclusão. Tanto que depois fui descobrindo na minha carreira a linha de argumentação, que desenvolvi bastante quando estava estudando Design Estratégico em Nova York.

Eu escolhi Design quando era mais nova porque com ele havia muitas áreas que eu podia abranger com uma área só. Eu podia fazer joias, eletrodoméstico, carros, garrafas, eu podia fazer tudo. Era justamente esta gama de possibilidade que mais atraía a estudar e ir além. Então o meu interesse pelo Design Thinking começou por aí. Por mais que hoje eu use o Design Thinking eu tenho uma visão bem diferente sobre ele atualmente.

Eu me especializei em Design Estratégico, que é a origem do Design Thinking. Se você pensar em Gestão do Design, Design Thinking, Design de serviço... A mãe de todo mundo é o Design Estratégico.  

E dentro disso, comecei a ver o Design como um agente social muito forte, tanto que hoje estou cursando uma pós-graduação em Empreendedorismo Social. Mas já tinha interesse nisso desde o NDesign 2010 (Encontro Nacional dos Estudantes de Design – 2010), pois foi quando conheci o Design Possível, uma ONG em São Paulo que atua com foco no Design como transformador social. E essa forma de atuar é meio complicado, pois no Brasil ainda há esta visão da produção de uma coisa específica, enquanto eu percebi nos últimos anos de estudo justamente esta possibilidade de ver o papel do Design numa visão mais holística, e não como uma cadeia de valor, e sim uma constelação de valor.

AD - Quando se está na faculdade estudando metodologia de projeto, já estamos próximos do Design Thinking? Ou um assunto não está relacionado com a outro?  

Tenho alguns pontos tá? Vamos entender a metodologia que a gente aprende na faculdade: esta metodologia é no âmbito acadêmico. Um âmbito acadêmico que aceita relações acadêmicas científicas. Metodologia que a gente conhece são aqueles autores que conhecemos de “cabo-a-rabo”, são os típicos que não são brasileiros, mas que são muito estudados no Brasil. Derivamos de Bauhaus, de Ulm etc…

Vamos esclarecer o ponto deste estudo que fazemos na faculdade: o ponto deste estudo é ensinar uma metodologia que funciona por muito tempo, que foi desenvolvida na era industrial e que funcionou muito bem. E funciona até hoje, se você vê na indústria ainda funciona muito bem. Foi a base de muito das coisas que a gente vive em nossa realidade atual.  

Mas é preciso entender outras metodologias que no mercado acadêmico brasileiro ainda não são difundidas.
  1. Vamos entender porque? Porque o mercado não tá exigindo.
  2. O que a faculdade faz? Ela te prepara para o mercado, se o mercado não está pedindo, ela não vai te preparar.
  3. Mercado está pedindo Design Thinking? Não está.
A maioria das pessoas que está no mercado nem faz ideia do que é isso. Não sabe o que é Design Estratégico, não sabe o que é Design Thinking, não sabe  posicionar uma marca, não sabe nem o que é uma marca. Então como você vai querer que uma pessoa do mercado que não seja de uma multinacional consiga articular isso? Como trabalhar isso se culturalmente o mercado brasileiro não sabe o que é, não exige isso?

Por isso as consultorias no Design são tão fortes aqui no Brasil. Muita gente poderia discordar de mim, mas tem uma presença muito forte sim. Por exemplo: existem grandes nomes como Crama, algumas historicamente reconhecidas como a do Guto Indio, a Tátil (fez a marca das Olimpíadas do Rio) enfim, existem várias grandes e várias que podemos citar.

Então, um assunto não está relacionado com o outro? Claro que está. Se você vai gerenciar um projeto, você precisa ter uma metodologia. Se a metodologia é do Design Thinking, se é a da academia ou a da engenharia isso não é o ponto. O ponto é a academia se fechar para algumas metodologias que já estão consolidadas e não atenderem a demanda muito maior, que é a social, a política. Tem muito mais a ver com Gestão do Design enquanto um todo. E eu estou falando da Gestão do Design da vertente do Design Estratégico. Então, quando a gente fala de metodologia sinto que a metodologia da academia não está errada. Porque tem gente que acredita que ela não vale mais e não é por aí, pois todas são válidas. A questão é a gente criar um senso crítico que diga qual o melhor momento para usar uma ou outra, como, por que e como costurá-las. E isso a gente não aprende e é uma habilidade que faz a diferença.

Eu sempre gosto de dar o exemplo do Canvas. O Canvas é um método maravilhoso que se difunde no mundo todo, mas não necessariamente as pessoas não sabem usar – colocam um monte de post-it, mas não conseguem fazer as relações, ver sistemas, conectar os pontos. Por isso eu reforço: o papel do designer como comunicador, como facilitador, como gestor é muito importante! Um designer líder se destaca muito mais, porque chefe e líder são diferentes e ter um líder que sabe planejar experiências holisticamente é muito diferente.

AD - Hoje em dia, a relação do designer ainda está muito ligado ao cliente. Como podemos estabelecer uma nova relação com a sociedade?

Se você acha que o cliente não faz parte da sociedade… Eu acho que algumas coisas são muito ligadas. Primeiro: quem é o cliente? O cliente não é o usuário, muitas vezes. Eu vejo o mindset do Design mudando muito. Porque o designer tem que lidar com o cliente, mas muitas vezes o cliente não é o usuário. Ele tá com o cliente, mas tá desenhando para o usuário. Isso na maior parte das vezes.

Mas quando estamos falando do designer que desenha para o usuário final, a gente está falando da sociedade – desenhamos culturas, desenhamos práticas. Quando desenhamos um produto que reforça algum padrão estético, ou algum preconceito, ou alguma distinção de gênero... Toda vez isso ocorre, eu não vejo o Design atuando sozinho.

Vou dar um exemplo: a BIC Rosa. A BIC rosa só para as mulheres. Quem que fez aquilo? Não foi só um publicitário. Algum designer desenhou aquele produto, desenhou aquela embalagem. Um publicitário fez a propaganda. Provavelmente deve ter também alguém de marketing, uma empresa toda atrás disso. Mas tem um diretor mandando fazer um projeto deste, para pensar quem é esta pessoa que vai usar essa caneta? E com o material lançado ele acabou de discriminar todo um mercado. Distinção de gênero por meio de um produto. Este é o ponto. O cara não tem consciência do tamanho e do impacto que ele tem na sociedade.

Geralmente, quando um designer desenha, ele não desenha só para uma pessoa. Ele desenha para um nicho e um nicho tem mais que uma pessoa. E isso já gera um impacto social. Então, se o profissional não consegue perceber o seu alcance, além de não conseguir fazer boas conexões com a sociedade, vai produzir um projeto muito pontual e não um projeto de Design.

AD - Recentemente, você participou de uma conversa sobre portfólio (caso não tenha visto, foi uma conversa via Hangout realizado pela Altitude. Aproveite e veja ele neste link). E o que me chamou a atenção foi que você considera a história pessoal. Designers podem ser contadores de história (No sentido de que cada projeto seja "uma história")?

Acho que tudo é uma história. A história do Design é uma história. A história dos seus projetos é uma história. Tudo é uma história. E tudo faz sentido de ser contado, porque este processo de ressignificar as experiências que a gente vive pra mim é importante (também tenho um projeto que inclusive vou lançar este ano, se chama “criar.se, uma plataforma para o autoconhecimento. Desenvolvimento holístico por meio do autoconhecimento.)

Cada história tem um significado muito grande. Você só consegue extrair sabedoria de cada uma destas histórias que você vive se você souber. Por exemplo, a primeira aula que tive (aula de portfólio) foi sobre um levantamento de todas as experiências da minha vida, inclusive as que não são de Design, especialmente estas. Então, se você fez uma viagem que marcou a sua vida ou teve algum momento marcante na sua infância a gente teve que mapear isso. Porque tudo isso reflete na forma que a gente faz Design. Justamente isso que faz cada designer uma peça tão única. Ninguém conta a mesma história do mesmo jeito. Se você pegar dois designers com o mesmo briefing, um fará um projeto muito distinto do outro.

Se você não vê em seus projetos uma história, então de verdade, qual é a sabedoria? Qual o impacto? Porque o impacto tem uma história. O resultado tem história. Pelo menos um processo por trás. E a história nada mais é do que dar significado ao processo. Então existe formas e formas de apresentar o que você fez. O que eu defendo lá na conversa sobre portfólio é justamente isso. Nós tentamos nos adaptar com o tempo num mercado, numa indústria que é seca e mecânica e “dentro da caixa” (o que eu discordo bastante porque a área criativa ainda tem muita coisa dentro da caixa). Agora quando eu falo sobre história é justamente sobre estas mudanças de mindset.

A Harvard Business Reviews tem um artigo bem impactante que mostra que o “RH está morrendo”, porque se fala de cultura. É na cultura organizacional que surge a diferença. Por exemplo, a Valve (uma das maiores desenvolvedoras de jogos). Qual é o processo de seleção deles? Está muito mais ligado à pessoa e à história de vida dela do que ao currículo. Não é porque ela deseja se tornar um designer muito incrível no futuro, mas porque ela se sente capaz de realizar agora.

 Se você não vê significado na sua história e não consegue passar isso para os outros, então não sei como você vai se posicionar no mercado como profissional. Porque se você não tem a mínima destreza de se comunicar como designer e perceber o valor na sua história e no que você faz, então você tem um problema de comunicação muito grave.

Caso queria ver as dicas de nossa entrevistada, clique aqui!

Quem acompanha o blog há algum tempo sabe que não abordamos muito os bastidores. Mas desta vez eu preciso agradecer a Hellem por forçar a inovação no blog, pois foi nossa primeira entrevista transcrita do WhatsApp e também a contribuição da Natália por dar uma ajuda no texto. 

OBS: Pessoal, quem acompanha o blog há algum tempo e puder contribuir ajuda e muito! Pois nós estamos realizando a primeira pesquisa de público do blog. Então, clique aqui caso queira contribuir ;D

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